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Senti necessidade de me expressar de outra forma que não através da música e da fotografia, antigas paixões. E foi uma surpresa quando vi que a matéria-prima com que trabalho há tanto tempo, a linguagem, poderia me dar a tábua de salvação expressiva de que eu tanto precisava e que tem me ajudado muito nos meus melhores e piores momentos, a poesia.

Vou listar aqui algumas dessas minhas tentativas de escrever poemas, cronologicamente. Todos os textos são de minha autoria. Mas como até meu romantismo é extremo, você não encontrará aqui poemas românticos nem melosos. São mais humanistas e existenciais, e como tudo ligado à existência, podem, eventualmente, demonstrar algum peso e pessimismo. Não tenho pretensão outra a não ser expressar minhas dores, loucuras, alegrias, dúvidas, angústias, revoltas e outros sentimentos que moram em mim.

Claudia Pinelli Baraúna Rêgo Fernandes®

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"Se eu ler algo e ele fizer meu corpo inteiro gelar, de uma forma que não haja fogo que possa me aquecer, eu sei que se trata de Poesia."



Emily Dickinson

sábado, 30 de junho de 2007

Morte às avessas

A morte apareceu em minha frente
Coberta por um véu de luz
Tão viva, tão sorridente

Mas como aquilo podia ser verdade?
A morte ainda estava viva
E bem jovem para a idade

Olhei para ela imóvel, assombrada
Afinal era tão espantoso
Só podia ser uma piada

Mas percebi que tudo ali era real
A luz, o sorriso, o véu
E ainda havia um coral

Indaguei curiosa se era sempre assim
A morte me olhou surpresa
e sussurrou algo em Latim

Tremi de medo quando enfim entendi
Ela encomendou a minha alma
e comprou o que eu nem vendi

Quando concatenei de fato as idéias
Resolvi baixar minha guarda
E aceitar futuras odisseias

Para falar a verdade, fiquei jururu
Não com minha morte em si
Mas com a falta de glamour

Queria sombras, a foice, véu escuro
Aquela voz grave, gutural
Todo aquele clima obscuro

E acabei sendo morta por essa senhora
Tão serelepe e iluminada
Sem graça e fora de hora

Ontem eu caminhava solitária pela rua
Hoje estou morta e frustrada
Mas com moradia fixa na lua.


Claudia Fernandes


30 de junho de 2007

Um cantinho encantado.

Num cantinho qualquer,
guardo coisas simples, sem muito valor
mas que possuem minhas digitais,
minha energia, meu calor

Num cantinho encantado,
me esconderia da vida, da realidade
que me sufoca e que destrói
qualquer sinal de sanidade

Quem me dera eu achasse
esse cantinho especial, com poderes mágicos
que me ajudasse a criar asas
e fugir dos fatos trágicos

A esperança que há tempos já morreu
para as demais situações da vida
insiste em aguardar, moribunda,
por essa que seria a única saída.



Claudia Fernandes.



30 de junho de 2007.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Viagem Marcada

Para você, criatura noturna
um amante da noite, solitário
de paixão extrema, soturna

Indico a rota da noite, do luar
dedico o abrigo das sombras,
o apoio de um olhar similar

Oferto o alívio em meus braços
ofereço o calor do meu sangue,
Cedo meu coração em pedaços

Abro a porta de minha alma
mostro um precioso segredo
deixo-o penetrar com calma

Divido toda a minha energia
para que possa se recuperar
do tempo e da vilã melancolia

E aqui está você, saído do inferno
voando com suas próprias asas
em direção ao descanso eterno.



Claudia Fernandes



29 de junho de 2007

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Fiat Lux!

No meio da noite, uma luz
tentou clarear minhas idéias
buscou dispersar o tormento
e como uma generosa amiga
fez-me enxergar o momento

No meio da noite, uma luz
abriu meus olhos fechados
ajudou-me a seguir em frente
iluminando o longo caminho
levando energia ao ambiente

Hoje aprendi uma boa lição
todos nós temos problemas
uns mais graves, outros não
(como fazer essa classificação?)
e para quase toda questão
há uma equivalente solução

Hoje, com os olhos abertos
e com a inspiração da luz
consegui enfim enxergar
que o escuro é transitório
como a dor é inevitável
o sofrimento é provisório
e só o tempo é implacável.


Claudia Fernandes



25 de junho de 2007

sexta-feira, 22 de junho de 2007

O terceiro lado do triângulo.

Flores
belas, estranhas
inodoras, cheirosas
brancas, coloridas
orquídeas, rosas

Animais
domésticos, silvestres
dóceis, ferozes
bonitos, repugnantes
lentos, velozes

Homens
brancos, negros
cultos, ignorantes
engajados, alienados
corajosos, hesitantes

Flores, homens, animais
aspectos diferentes
mas moradias iguais

Homens, animais e flores
iguais origens
diferentes cores

Animais ajudam as flores
flores ajudam os animais
juntos coabitam pacificamente
e assim vivem, num mar de amores

Só o homem não quer interagir
dessa harmonia entre os seres
pensa só em como matar e destruir
a tudo e a todos, sem dó e a esmo...


...inclusive a ele mesmo.


Claudia Fernandes


22 de junho de 2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Verdade perdida

Para amenizar a indignação
procurou por uma flor
Para acalmar a frustração
mentalizou aquela cor

Para provar o mau momento
Não havia um ser original
Para acabar o ar de desalento
o fim de tudo que é artificial

O segredo nessa ausência penosa
É estabelecer certos padrões gerais
é ver o cacto como uma linda rosa
e olhar as flores como sendo reais

Flores bonitas e vivas estão em falta
mas cactos e flores falsas têm de sobra
a escassez aos olhos dos atentos salta
e a busca pela verdade perdida recobra.


Claudia Fernandes



20 de junho de 2007

Crônica de uma revanche anunciada

Para todo excesso, há um limite
às vezes demora de chegar
mas pode estourar como dinamite.

O Brasil é um terreno propício
políticos que só roubam
e o povo jogado no precipício.

Vinte anos, cem anos e nada muda
entra governo, sai governo
ninguém faz, ninguém ajuda.

O povo foi condicionado a não ver
é mais fácil fechar os olhos
e a sagrada esmola receber.

Mas a paciência enfim se esgotou
Basta de descaso, senhores!
A cegueira e a omissão já acabou!

Os olhos do povo estão bem abertos
Chega de só esperar
e só conseguir caminhos incertos.

A passividade criada para ser arsenal
antes tão útil e necessária
será a arma que fará o ataque final.

Não dá mais para o povo suportar
é só corrupção e roubo
educação posta em último lugar.

Hospitais sucateados, desigualdade social
gente com fome, com frio
sem nenhuma esperança ou ideal.

O ultimato já está aqui lançado
ou mudam as prioridades
ou a próxima eleição mostrará o resultado.


Claudia Fernandes



20 de junho de 2007

terça-feira, 19 de junho de 2007

Eternamente, o Tempo

Tempo...
Palavra de ambíguas definições,
de incompletas adjetivações,
de infinito significado.

O Tempo adora brincar de forma dualista,
está sempre presente,
e desaparece de repente, sem deixar pista.

O Tempo é um hábil mestre do disfarce,
sabe ser impiedoso,
mas sabe solucionar um difícil impasse.

O Tempo é algo tão real, vivo, patente,
e ao mesmo tempo,
tão relativo, efêmero, volátil, reticente.

O Tempo às vezes anda calmo, displicente,
dando à vida
a aparência de eterna, lenta, indolente.

O Tempo também pode passar bem veloz,
fazer você dormir jovem,
e acordar velho, arrependido ou sem voz.

O Tempo pode refletir o claro, belo, quente,
e dessa forma,
transmitir uma idéia de alegria e vida latente.

O Tempo ainda pode se mostrar escuro e frio,
e assim,
influenciar num clima deprimente e sombrio.

O Tempo pode ser seu mais fiel companheiro
quando aos 15 anos,
você espera ter 18, e assim ser um beijoqueiro.

O Tempo, por outro lado, pode ser implacável,
quando aos 80 anos,
você se olha no espelho e percebe o inexorável.

O Tempo é assim, incomparável
e dependendo do momento,
pode ser odiado ou bem quisto.

Ele é naturalmente indefinível
e misteriosamente presente
sem nunca ao menos ser visto.


Claudia Fernandes



19 de junho de 2007

Meras questões

Para que tanta fartura?
Para que tanta avareza?
Se há tanta gente dura
E nada de comer na mesa

Para que tanto dinheiro?
Para que tanta ganância?
Se só quem rouba primeiro
pode viver com elegância

Para que tanto ódio?
Para que tanta intolerância?
Se a guerra é só um episódio
da eterna e triste ignorância

Para que tanta pobreza?
Para que tanta fome?
Se riqueza tivesse um nome
este deveria ser natureza

Por que não um justo equilíbrio?
Por que não a tão desejada paz?
Por que alimentar a miséria anos a fio?
Por que incentivar uma guerra ineficaz?


Claudia Fernandes



19 de junho de 2007

sábado, 16 de junho de 2007

Olhos abertos.

A censura, de certa forma, paira no ar
Ignoro, contudo, essa penosa sensação
Pesquisei, visitei, li, comparei, analisei
Mas não cheguei a nenhuma conclusão

Fala-se em repressão a canais de rádio
Até jornal e tevê na mira da tal censura
Comenta-se a omissão em certos países
Como Venezuela, Corea e até Cingapura

Mas nada disso realmente conta ou importa
O que importa mesmo é o cheiro de censura
um cheiro fétido que revolve suas entranhas
e esse gosto amargo, de fel, que só o mal traz

Vade retro, Satanás!



Claudia Fernandes



15 de junho de 2007

Avante...

Ele nem olha para os caminhos sinuosos
que ficaram para trás
Segue a sua meta em linha sempre reta
sem Deus, nem Satanás

Conta somente com uma energia interior
que o carrega para frente
Seu futuro espera ansioso para acontecer
sem ele, o seu único agente


Claudia Fernandes



15 de junho de 2007

sexta-feira, 15 de junho de 2007

A morte da esperança

Durante um longo período
nutri, cultivei e adubei
a bela flor da esperança
lá bem no fundo do peito
achava que haveria jeito

Era crédulo sobre a flor
antes meio fraca, frágil
parecia que já florescia
brava, selvagem e segura
crescia em fé, em altura

Depois de todo sacrifício
de ver algo crescer sadio
observar uma erva daninha
dominar e atacar sem medo
sem cerimônia nem segredo

É, para ele, decepcionante
e aquela esperança em flor
se perde por causa de algo
perpetrado por sentimentos
chulos, glórias e lamentos

Hoje, a flor da esperança
após inúmeros ataques vis
está murcha e quase morta
O homem, se era confiante
tornou-se o vazio andante


Este coitado perdeu toda sua esperança
que morreu, de maneira triste e fatídica
ela deixou o ente sozinho, desamparado
Se a esperança é sempre a última a morrer
O que ele poderá, agora, de eficiente fazer?



Claudia Fernandes



15 de junho de 2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Não se iluda...

Por trás da beleza provocante da rosa
sempre existirá um traiçoeiro espinho
que irá se esconder de forma ardilosa
para sangrar o mais inocente dedinho

Então, não se deixe levar pelo fascínio
que no começo parecerá maravilhoso
logo terá manipulado o seu raciocínio
de um jeito autoritário, nada amistoso

Portanto diga não ao espinho que lhe fere
e lute para poder escolher algo de melhor
do qual só a paz e a liberdade você espere
não um desperdício de seu sangue e suor

A censura é falsa e pérfida como o espinho
Engana o mais desatento bobo samaritano
Se esconde por trás de um errante caminho
e de certo mesmo só um incorrigível engano.


Não se iluda...



Claudia Fernandes



14 de junho de 2007

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Rascunhos

Caminhando pelo cemitério daquela cidade
Um túmulo suntuoso me chamou a atenção
Na lápide, foram talhados o nome e a idade
Além de palavras que tocaram meu coração
E se converteram em uma estranha verdade

Aquele epitáfio era majestoso e dizia em Latim:
Escreva sempre a sua história em um rascunho
Nunca redija-a de maneira definitiva no marfim
O segredo é esboçar rabiscos de próprio punho
Assim, ficará sempre livre para modificar o fim

Isso ocorreu há muito tempo, era só um menino
Marcou para sempre minha mente, minha alma
Hoje já sou um velho senhor, persigo meu destino
Mudei meu fim várias vezes com virtude e calma

Porém já não quero mais perseguir essa mudança
Cansei-me de sempre mudar alguma coisa errada
Agora o que desejo mesmo é escapar da cobrança
E assistir ao final da minha vida de arquibancada.


Claudia Fernandes



13 de junho de 2007

Prisão da alma

O corpo, matéria
matéria feita de água
matéria feita de sangue
feita de carne, ossos

O corpo, energia
energia composta de alma
composta de um espírito
composta de vida, luz

O corpo, templo
templo sagrado e profano
pedestal do dote material
base do ser transitório

O corpo, prisão
prisão da alma e do espírito
e só estarão realmente livres
enfim, com a morte.


Claudia Fernandes



13 de julho de 2007

terça-feira, 12 de junho de 2007

Panteão dos infernos

O sol refletiu uma triste cruz
ele fechou os olhos para não ver
na parede a imagem à meia-luz
cena que ele preferia esquecer

Mas a memória é bicho traidor
e todos os dias dessa pobre vida
ele lembra daquela cena de dor
que na sua mente foi esculpida

O garoto caído na rua, morto
sangue jorrando, cor escarlate
o pai velava seu filho, absorto
um cachorro distraído, só late

Ele sempre vai lembrar do dia
em que viu o seu irmão no chão
e de um reflexo da cruz da abadia
cenário de um lastimável panteão

Na sua mente, como numa encenação
ficou aquela imagem da cruz no muro
seu pai ali parado, sem qualquer reação
e o corpo de seu irmão já sem futuro.


Claudia Fernandes




12 de junho de 2007

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Duvidosa aliteração

O amor amornou o frio
O sol soletrou verborragia
A dor adormeceu a força
A cor cortou a monotonia

O par participou da festa
O dia dialogou com a vida
O ser serviu o indivíduo
A morte amorteceu a saída

A fé ferveu a insanidade
A flor floresceu no sertão
O rio riu do humor negro
O bem bendisse a paixão

A cara encarou o trauma
A boca abocanhou o céu
A prece precisou da ação
O colo coloriu a tentação


Claudia Fernandes



11 de junho de 2007

domingo, 10 de junho de 2007

Desconfiança justificada

Terêncio, corre aqui na cozinha, ômi!
Que ocê qué, muié, cum tanta pressa?
É prá ver se ocê num some
E vai correno pro buteco do Zé
Prá ficá lá só no tre-le-lé.

Qué isso, Cremilda, mas que desconjuro!
Como ocê pode sê tão cruel e injusta?
Fiquei prucupado cocê e cos fio, no duro!
Eu tava ino era na venda do Nhô Bento
Prá trabalhar e fiar algum alimento.

Ai, Terêncio, me adesculpe, que balela
Tô sem graça agora, nem sei o que dizê
Vai logo, ômi, que vou esperar na janela
Assim, quando ocê chegar, corro para fazê
O que ocê come até a cuia lambê.

O Terêncio realmente foi à venda do Bento
Não foi fiar comida para sua pobre família
Mas foi, na cara dura, pedir um adiantamento
Tomou um ônibus e o sertão deixou para trás
Para aquela vida não voltaria nunca mais.


Claudia Fernandes



10 de junho de 2007

Quadro irreal

Não pinte um quadro de mim
pelo que eu possa parecer
Erro absoluto

O passado deixou marcas
que tento não transparecer
Falso impoluto

Quando olha para mim
chega a conclusões infecundas
Ação precipitada

Pois tem um olhar superficial
para coisas altamente profundas
Angústia velada

No seu parco julgamento
apenas considera o que tenho
Avaliação vazia

Esquece de perceber a verdade
por não ter o mínimo empenho
Triste apatia

Dessa forma, não consegue ver
que bens materiais não valem nada
Obscura demência

E crê que a real essência
parece meio confusa e embaçada
Pobre impotência

Coisas aparentes ao meu redor
não podem representar o que sou
Leviana confusão

Olhe bem mais no fundo
perceba os sinais que lhe dou
Clara intervenção

Minha alma tem cicatrizes
que ainda permanecem abertas
Perigosa lealdade

Sou muito mais do que tenho
e tento fazer as poses certas
Inquieta insanidade


Claudia Fernandes



10 de junho de 2007

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Triste Prosopopéia

O ventilador, no teto, só chiava
Como se gritando, para que ela ouvisse
A garota que na cama definhava
Absorta, inerte, como se não existisse

O ventilador notou sua incompetência
Seus gritos de nada adiantavam
Ele queria diminuir a dor a e a carência
Que pouco a pouco só aumentavam

Mesmo com toda sua disposição
A garota não conseguiu vencer
Continuou imersa na depressão
Triste, apática, querendo morrer

Coitado daquele amistoso protetor
Depois disso, não mais se recuperou
Gira fraquinho, problemas de motor
E sua antes vigorosa voz, silenciou.


Claudia Fernandes



8 de junho de 2007

Nada está perdido

A chuva lá fora sentencia:
Não há sol, nem calor
Ficou apenas uma tarde fria
De abandono, de torpor

Como poderia adivinhar
Fato tão inusitado
O funeral de um homem solar
Num dia assim cinza e nublado

Que neste mundo que lhe espera
Esteja um dia ensolarado
Assim verá que o que venera
Aguarda-o lá do outro lado

Mas que bela ironia
O homem que gostava de sol
Despediu-se da agonia
E acordou com o arrebol


Claudia Fernandes



8 de junho de 2007

A Última Viagem

Sentado à beira do mar, ele já não esquece
De como viveu bem, e de como foi amado
Olhando fixamente a maré que sobe e desce
Agradece os anos em que na terra tinha estado

Estava agradecido, porém estava infeliz
Descobriu que não viveria como costumava
Sabia que sua saúde estava fraca, por um triz
A quase certeza da imortalidade enfim acabava

A vida sempre insiste em surpreender a todos
Para uma pessoa morrer basta que esteja viva
Ele agora começou a ficar mais conformado
Apostará numa vida alegre, e mais ativa.

Depois que saiu da praia e deixou o mar
Sentiu aquela indescritível tranqüilidade
Chegou em casa, olhou com amor o lar
Deitou, e em paz, partiu para a eternidade


Claudia Fernandes




8 de junho de 2007

Casus Belli?

Chegou até a janela e gritou alto
Um breve apelo à morte
Analisou como poderia ser o salto
Desistiu, precisava de sorte

Sentou naquele sofá rasgado e sujo
Olhou triste para o teto
Recordou de quando era um marujo
Acabou todo aquele afeto

Começou a doer onde era a sua perna
Lembrou de antes da guerra
Era um indivíduo, uma imagem paterna
Hoje, apenas sonhos por terra

Chorou por saber que lutou inutilmente
Mais um herói frustrado
Em uma guerra feita para destruir gente
Outro assassino legalizado



Claudia Fernandes




8 de junho de 2007

Criatura da noite

Sou uma dessas criaturas da noite
não gosto de sol, não gosto de luz
o claro do dia me parece um açoite
o escuro da noite me toma, me seduz.

Sou incompreendido por ser diferente
Por ser de uma forma dita "anormal"
Mas se acho a oposta nada atraente
por que então eu deveria ser igual?

Não procuro o outro satisfazer
Nem tento à maioria me igualar
Só posso assumir meu jeito de ser
Só devo a minha expectativa agradar

De manhã, procuro me esconder
dentro de casa, dentro de mim
como um casulo a me proteger
do brilho e da claridade sem fim.

À noite, sinto uma paz verdadeira
e sei que então sairei sem receio
a escuridão é minha fiel companheira
os caminhos obscuros, meu único meio.


Claudia Fernandes



8 de junho de 2007

quinta-feira, 7 de junho de 2007

O Sorriso da Lua

A lua no alto sorri bem largo
lembra-me logo o gato de Alice
olhou para mim e como um mago
sem pestanejar de lá logo disse:

Depende do lugar aonde quer ir, cherrie!
Como ele sabia o que eu iria perguntar?
Mas não me importava saber aonde ir
queria apenas chegar a algum lugar

Então falou enigmático o sorriso:
Se quer apenas a um ponto chegar
nenhum grande esforço é preciso
Pois isso é lógico que acontecerá.

Olhei novamente para o sorriso-lua
e sorri também, em agradecimento
Em um lapso de tempo, ali na rua
aprendi aquele lindo ensinamento.


Claudia Fernandes


7 de junho de 2007

O Dia D.

A timidez era um traço daquele rapaz
Olhava para ela como se fosse pecado
Contudo esperava que ele fosse capaz
De chegar mais perto, ser mais ousado

Numa noite de maio, ela foi a uma festa
Que bela surpresa, ele também estava lá
Olhares insinuantes, na pista uma seresta
Tensão, e ele evitando na mão dela tocar

Ela se perguntava o que estava ali fazendo
Odiava seresta ou outro ritmo semelhante
O que ela queria viver, não estava vivendo
Mas o caso tinha tudo para ser interessante

Conversaram e durante essa festa, ela intuiu
Ter encontrado sua tão esperada alma gêmea
Eles mostravam muito em comum, ele aduziu
E claro que o macho tinha farejado sua fêmea

O tempo, bem gozador, cada vez mais lento
Brincava e essa espera parecia já se eternizar
Depois de um instante interminável, o vento
Resolveu com uns empurrões o casal ajudar

De repente, ela que estava distraída, sentiu
O calor da mão dele tocando a sua de leve
A boca ficou seca, fez no estômago um frio
A sensação era uma mistura de sol com neve

Finalmente, após o toque das mãos inicial
O fato mais desejado e esperado iria ocorrer
O atrito dos seus lábios pareceu algo surreal
E assim será até o dia em que um deles morrer


Claudia Fernandes



7 de junho de 2007

Liberdade em cena

Ele fez o que sempre quis
Tirou a roupa no seu altar
Entretanto não estava feliz
Queria toda revolta mostrar

Essa nudez não será castigada
Uma vez feita por pura emoção
De repente, um estalo e mais nada
De repente, adeus à tosca razão

Ali, no seu mundinho todo singular
Amarras e controles não mais existem
Só uma sensação que parece libertar
As dores que em seu peito ainda resistem

O que ele sente quando canta
A nada em sua vida se compara
Por ser autêntico, ele encanta
Com loucas viagens, e de cara

Na noite seguinte, volta ao que tem
O velho quarto, as velhas manias
Olha para os lados, pensa em alguém
É hora de praticar as suas fantasias.



Claudia Fernandes




7 de julho de 2007

Dia negro

Naquele dia, o dia amanheceu dormido
como o velho pão que eu nem havia comido
como costuma fazer o cupim com quem divido
este quarto gelado e escuro em que resido

Naquela noite, a noite anoiteceu ligada
como uma vizinha eternamente drogada
como eu acabaria se não estivesse fadada
a viver ali, sozinha, naquela cama, deitada.


Claudia Fernandes



7 de junho de 2007

Brasil, de fato e de direito

Brasil, de fato, um país deslumbrante
tem carnaval, futebol, samba, mulata
muito sol, praia, calor, povo vibrante
e rica fauna dentro de uma densa mata

Brasil, de direito, um país sem precedente
políticos impunes a roubar sem pudor
enquanto a educação continua decadente
e a saúde jaz, moribunda, criando bolor

Brasil, terra do orgulho por um lado
é a terra da vergonha pelo oposto
até quando será o mais praticado
logo aquele que dá mais desgosto?

A situação é assaz insuportável
uma solução para isto é urgente
não dá para ser mais amigável
só algo radical parece condizente.



Claudia Fernandes



7 de junho de 2007

Acorda, gente estúpida!

Acorda, gente estúpida,
não vê que não adianta
ter uma alma tão insípida
que à Terra desencanta

Basta, população inútil,
de matar sem dó outro ser
em nome de uma moda fútil
ou por um simples prazer

Chega, raça arrogante,
de deixar Gaia nervosa
vendo que a raça pensante
pode ser muito perigosa

Pense, povo imbecil,
tão ávido de luxo e poder
a relação será sempre servil?
a vida nunca há de perecer?

Saiba, Sua Excelência,
os animais só se subordinam
sofrendo assim séria violência
porque a língua não dominam.

Mas se eles pudessem falar
com toda sua inteligência
mostrariam quem é superior
no momento de argumentar
sem nenhuma divergência
sobre amizade, honra e valor.


Claudia Fernandes



7 de junho de 2007

quarta-feira, 6 de junho de 2007

A Fonte

A fonte era farta, generosa, abundante,
para todos aqueles que a ela recorriam
e assim servia de amparo constante
entretanto nada em troca eles traziam

A surpresa foi grande quando num belo dia
ele se aproximou da fonte e percebeu
um fato inesperado, que lhe tirou a alegria
a fonte estava lá mas nenhuma água bebeu

E se perguntou o que teria acontecido
o dia anterior tanta água por lá corria
voltou para casa com o coração partido
sem ao menos perceber sua co-autoria

Aquela fonte farta e abundante de outrora
hoje está seca, esgotou-se, não mais existe
por servir apenas pela água limpa, agora
já não importa mais, e ele, enfim, desiste.


Claudia Fernandes




6 de julho de 2007

terça-feira, 5 de junho de 2007

O Homem-Vírus

O que um besouro difere do Homem racional?
Ambos são seres da natureza, animais
Ambos terão que saber lidar com a sorte
Mas o Homem possui características virais
Pensa que pode manipular até a morte

Inconsequentemente, brinca de Deus
E se considera um ser superior
Onde chega promove caos e extinção
Não percebe que a preservação não é um favor
Não compreende que ele sofrerá com a destruição

É típico encontrar algumas ações arrogantes
Diante de um besouro o homem se sente forte
Acha que nele pode pisar sem dó nem pena
E ignora que um dia ele deverá ter sorte
Para não ser o próximo pisado em cena

O Universo está sendo rapidamente dizimado
Milagres não ocorrem e os danos vão além
É necessário uma percepção sensível e geral
Uma visão voltada para o holos, para o bem
E só o Homem pode adiar esse trágico final.



Você faz a sua parte para adiar o fim?


Claudia Fernandes



5 de Junho - Dia Internacional do Meio Ambiente




5 de junho de 2007

Deus ex machina

Apenas gritos, raiva, aflição
Nunca terminará esse inferno
Seus parentes jamais se entenderão
A vida será sempre esse caos eterno

Na sua própria casa, vive sozinho
Não ouve música, nem dorme mais
Sente-se como um estranho no ninho
Inserido num mundo que só mal lhe traz

Tem dores de cabeça malditas
Precisa de silêncio, de sono noturno
Na sala, brigas patéticas e infinitas
No quarto, só um pensamento soturno

Será que nunca terá paz de espírito?
Nunca colocará a cabeça no travesseiro?
Um dia respirará aliviado e não mais aflito?
Um dia poderá viver livre e por inteiro?


Claudia Fernandes




5 de junho de 2007

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Vivo ou Morto?

Hoje, ele estava com uma dúvida
Ele não sabia para onde ir
Não queria ficar em casa
Só precisava dali sair
Ah, como queria ter asa
Para então voar e fugir

Resolveu sair assim mesmo
Enfiou a chave na fechadura,
Girou, abriu a porta e partiu sem destino
E mesmo sem ter uma elegante postura
Fez pose com o chapéu como um grã-fino
Esquecendo de toda a sua amargura

Ele parou no hall da entrada
A dúvida ainda lá permanecia
Seguir em frente, à direita ou à esquerda?
Enquanto pensava, a confusão crescia
Ponderou qual o ganho, qual a perda
O que aconteceria nesse estranho dia?

Ele precisava ir para algum lugar
Sentia essa enorme necessidade
Ficar em casa seria um tormento
Mas de onde vinha tanta ansiedade?
Qual era o seu maior alimento?
Como resolver tal incapacidade?

Apesar de pensar bastante
Ele não encontrou algum motivo
Para tanta dúvida e confusão
E viu que apesar de estar vivo
Vivia cercado de vazio e aflição
E desses sentimentos acabou cativo

Ele parou, respirou e olhou para o céu
Admirou a beleza de um lindo broto
Sentiu a ebulição de seus hormônios
Abriu a porta com um sorriso maroto
Voltou para casa, para seus demônios
Pode não estar vivo, mas não está morto.


Claudia Fernandes




04 de junho de 2007

Múltiplas Realidades

Você garante que o que você vê é a realidade?
E o que o outro vê é diferente do que você vê?
A sua realidade é mais real do que a do outro?
Ou exatamente o oposto é o que deve ser?

Muitas questões aparentemente sem respostas
São esclarecidas se você deixar abrir sua mente
Um objeto pode estar em dois diferentes lugares
Mas não se preocupe se ainda estiver descrente

A observação mostra que as realidades são infinitas
O que vejo pode não ser o que você vê, e vice versa
As possibilidades da realidade se colapsam em uma só
Que será a sua aparente realidade e dos outros diversa

Ou seja, dessa grande variedade de realidades possíveis
Cada pessoa escolhe apenas uma e assim a materializa
Tornando-a sua realidade pessoal, defectível e única
E dessa forma, apaga as outras pois não as realiza

Se a realidade não é concreta em sua plenitude
E não é algo fácil de ser explicado e comprovado
Então o real deve ser vivido de forma particular
Pois no fim, esse jogo sempre terminará empatado



Claudia Fernandes




4 de junho de 2007

domingo, 3 de junho de 2007

O Tempo é Seu

Hoje você acorda, e de verdade
Pensa como seria bom aqui ficar
Ah, Deus, mas que enorme maldade!
Essa obrigação de estudar e trabalhar
Sem uma mínima espontaneidade

Olha o relógio, e se dá conta da hora
Reclama com o tempo e com tudo ao redor
E quanto mais você reclama, logo piora
A sensação de ter que fazer algo dito melhor
Mas que na sua alma desse jeito não aflora

Olha o relógio de novo, e por uma eternidade
Pensa em si e no dever, analisa essa identidade
Quase perdendo o sono, reflete sobre o problema
Depois de algum tempo, com toda a honestidade
Conclui ser um exemplo de um complicado dilema

Dever levantar, sair, trabalhar, estudar e viver
Querer ficar, deitar, dormir, sonhar e sobreviver
Alguma resposta seria mais sensata e eficaz?
Certamente que não, por isso ele, sem volver
Desligou o relógio, fechou os olhos e dormiu em paz...



Claudia Fernandes



4 de junho de 2007

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Carpe Diem

O sol brilhou
E ele não notou
A criança sorriu
E ele não viu

O pássaro cantou
E ele cochilou
A estrela luziu
E ele dormiu

Ele negligenciou a vida,
o tempo, a natureza,
as coisas boas e belas
Pensou que viveria eternamente
dentro de uma perfeita aquarela

Mas o vento soprou implacável
E ele, sem força, voou
para bem longe
por um caminho sem saída,
sem beleza nem doçura

Mas o tempo passou inexorável
E ele, inerte, ficou
para sempre
olhando o que sobrou da vida,
com tristeza e amargura

E nesse momento de inércia
Ele pensou, pensou
E percebeu que muitas coisas ele nem conhecia
Até voltar atrás ele tentou
Até um acordo com o diabo ele faria

Porém para seu triste azar
algo mais que previsível aconteceu
No seu enterro nem flores, nem parentes
nem pássaros havia por lá
No seu enterro, somente a chuva apareceu




Claudia Fernandes






01 de junho de 2007
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